09/02/2010

“Eu me pergunto o que você deve estar fazendo em Paris”

“O que Nadja faz em Paris, ela mesma se faz essa pergunta. Bem, à noite, lá pelas sete, ela gosta de estar num vagão de segunda classe do metrô. A maioria dos passageiros é gente saindo do trabalho. Ela se senta entre eles, procura descobrir no rosto deles o motivo de suas preocupações. Pensam necessariamente no que acabam de deixar até amanhã, só até amanhã, e também no que os espera à noite, algo que os desanuvia ou os deixa ainda mais preocupados. (…) Naquele momento, eles estão sendo vistos, mas eles nem sequer a veem.”

André Breton, Nadja

01/02/2010

Morar em Paris

Vídeo feito pela Carol Bensimon.

28/01/2010

“This isn’t Paris. This is hell.”

Enquanto Vito Acconci não me deixa dormir e eu tento organizar as ideias para escrever algo a respeito, taí um filme que eu recomendo para quem quer uma visão mais realista, menos romântica, de Paris.

2 Days in Paris é um filme de 2007 escrito e dirigido pela francesa Julie Delpy – aquela que passeou com Ethan Hawke em Viena, em Antes do Amanhecer, e depois em Paris, em Antes do Anoitecer.

Sinopse: fotógrafa francesa radicada em Nova York leva o namorado americano para passar dois dias em Paris. Na ocasião, ele conhece a família da moça, sofre uma série de choques culturais e se mete em tremendas confusões.

Falando assim e vendo o trailer, parece uma comédia bobalhona, mas não é.

A visão antirromântica da cidade, pelos olhos (arregalados) de um estrangeiro, vai dos motoristas de táxi a bizarrices gastronômicas. O mais interessante é que a roteirista-diretora-atriz é francesa – mais do que isso, parisiense – ou seja, ela sabe do que está falando.

31/12/2009

Selo para colar com uma cabeçada

Da agência EFE:

Correio francês lança selo com imagem de Zidane

Paris, 30 dez (EFE).- A partir de janeiro, quem enviar cartas na França poderá usar selos com a imagem de um dos maiores astros da história do futebol do país, o ex-jogador Zinedine Zidane.

A empresa pública de correios francesa, La Poste, anunciou o lançamento de uma série de dez selos que serão vendidos a 9,90 euros (R$ 24,70).

Parte do dinheiro das vendas – 1 euro por selo – será destinada à Associação Europeia contra a Leucodistrofia, presidida pelo ex-craque de Juventus e Real Madrid.

Os selos poderão ser comprados a partir desta quinta-feira, pelo site da empresa francesa de correios, ou do dia 11, nas agências locais.

 

(Dica da Taís, que vai receber um desses num postal se a moça aqui tiver dinheiro)

24/12/2009

Ho ho ho

17/12/2009

Let it snow, let it snow, let it snow

14/12/2009

The smell of napalm in the morning

Comer é caro em Paris. Para quem almoça na rua todos os dias – e aqui estou falando principalmente em estrangeiros chinelos, bien sûr – as opções são bastante limitada$. Geralmente, a coisa acaba em sanduíche. Daí que, de tempos em tempos, relembro a merendeira da pré-escola levando um sanduíche de casa para comer entre uma aula e outra. É mais barato, é feito por mim e não é “McDo”.

Ontem, exausta depois de ter trabalhado durante todo o fim de semana, abri a geladeira e peguei tudo o que poderia caber em um sanduíche: queijo gouda fatiado, tomate, mostarda, alface, hm! olha um restinho de camembert ali… Montei tudo, embalei em plástico-filme e coloquei dentro de um tupperware, junto com dois guardanapos. Merenda prontinha.

—-

Corta para hoje, 7h30, no metrô. Saí cinco minutos mais tarde e já está bem mais cheio. E que fedor. Começo a reclamar mentalmente e percebo que o cheiro que estou sentindo é meio, hm, diferente. Não é fedor de sebo velho, nem de bunda suja, nem de bafo de onça. É um cheiro, não sei, meio podre… e parece vir de… mim!

Pânico. Em poucos segundos, verifico na memória item por item da higiene pessoal. Tudo certinho. Já sei. Só pode ser o casaco. Resgatei ele do armário hoje, para inaugurar as temperaturas negativas. Em pé, segurando a barra de pole dancing do metrô, deslizo sutilmente a cabeça pelo meu braço.

Hmf. Um pouco de cheiro de armário, talvez, mas o nariz fica até melhor ali do que no entorno.

Desço correndo na estação Saint-Michel e, na rua, meu nariz congela o suficiente para não sentir mais nada.

Já tinha até esquecido, quando entrei na sala de aula, sentei e fui pegar meus livros. OH LÀ LÀ. Vejo uma nuvem de odoeur envolvendo o saco plástico no qual está enrolado o tupperware bem fechado com um sanduíche enrolado em plástico filme dentro. Em menos de um segundo, de ré, volto para o segundo parágrafo. A palavra camembert pisca.

Pois é, contaminei o metrô (e a sala de aula) com queijo fedido. Nesse momento, algum companheiro de vagão ainda deve reclamar do cheiro podre no metrô de Paris, amaldiçoando todos esses franceses porcalhões e suas mães.

(Eu, pelo menos, acabei comendo o sanduíche depois da aula, e agradeço aos franceses e suas mães por todos esses queijos deliciosos. Amém.)

10/12/2009

L’odeur, l’odeur…

Por um lado, com o frio, o fedor não evapora tanto. Por outro, as pessoas acham que têm mais um motivo para enforcar o banho regularmente, economizam na lavanderia e “disfarçam” tudo com perfume (costumam ser bons perfumes, pelo menos). As estações de metrô, normalmente fedidas, acolhem ainda mais mendigos e se tornam insuportáveis.

É o estereótipo, e é verdade.

Respirar devagarzinho com o nariz enfiado no cachecol não tem mais sido muito eficaz. Acho que vou ter que adotar a técnica do resfriado:

05/12/2009

Sonia e o sovaco depilado

Neste sábado, imagino, mulheres de todo o mundo estão se estapeando por uma calcinha em alguma das 1500 lojas da H&M que acabam de colocar à venda uma coleção de lingerie assinada por Sonia Rykiel.

Esta é a primeira linha de lingerie criada por um estilista de nome para a rede sueca. As peças, divididas em seis temas, incluem camisolas, faixas para cabelo e até almofadas. Não acredito que façam tanto barulho quanto as roupas que a H&M já lançou em parceria com Karl Lagerfeld e Stella McCartney, por exemplo, mas devem vender bem, com o Natal chegando e preços a partir de € 7,95.

É motivo suficiente para eu não passar perto de nenhuma H&M hoje.

 Enfim, tudo isso aí em cima é só uma pequena introdução para o que eu queria mesmo mostrar:

Anúncio da coleção no metrô - e um adesivo vermelho colado

 

"Não à depilação". Depois não querem levar a fama.

03/12/2009

Se a Sissi sassarica

Fomos ver ontem L’Enfer d’Henri-Georges Clouzot, documentário sobre o inacabado e (especula-se) revolucionário filme que Clouzot rodou em 1964, estrelando Serge Reggiani e Romy Schneider, nossa eterna Sissi.

 

A história é toda meio maluca. L’Enfer foi um projeto ambicioso, de orçamento ilimitado, que acabou virando o próprio inferno do nome. O enredo, contado de forma subjetiva, é meio Dom Casmurro: o ciumento Marcel desconfia que sua mulher Odette (a bela e sorridente Mme. Schneidérr) seja infiel. Até aí, nada de extraordinário. O que teria tornado o filme revolucionário, dizem, é a forma como ele conta essa história.

Marcel, o ciumento patológico

Clouzot cuidou obsessivamente de cada detalhe para mostrar a paranoia infernal de Marcel: da música e efeitos sonoros a diferentes explorações visuais, como inversão de cores e recursos meio arte cinética. Hoje não me parece grande coisa, mas ainda assim é bem interessante. Me pergunto se, na época, era mesmo tão revolucionário – é só pensar em Buñuel ou Duchamp. De qualquer modo, Clouzot fez isso em forma de grande produção.

Teste para inversão de cores

Clouzot e Romy Schneidérrr

Enquanto o personagem ciumento fica repetindo “eu não estou louco, eu não estou louco”, quem parecia estar louco era o diretor. Primeiro, tudo deveria sair exatamente como planejado. Cada movimento era previsto. Cada plano devia seguir exatamente o storyboard. Cada expressão dos atores devia ser igual ao que ele tinha imaginado. Depois ele começou a ter ideias – o documentário tem depoimentos de membros da equipe dizendo “ele me ligava às duas da manhã para dizer que havia tido uma ideia”- e fazer mudanças, regravar isso e refazer aquilo. Matou no cansaço a equipe, que aos poucos foi abandonando o barco. A coisa desandou mesmo quando Reggiani, que interpretava Marcel, resolveu fazer as malas. Pouco depois, Clouzot passou mal enquanto filmava uma cena, saiu do set de ambulância e o filme ficou por isso mesmo.

O que o espectador teria visto no filme inacabado é o inferno e a loucura de Marcel; o que o espectador vê no documentário é, justamente, o inferno e a loucura de Henri-Georges Clouzot.

Se L’Enfer seria mesmo tão revolucionário, não sei. Mas o inferno do diretor me parece bem mais intrigante do que o do personagem.