Aula de fonética. Lição de hoje: /õ/, o “o” nasal. Como de costume, a professora pede exemplos de palavras para criar os exercícios que faremos depois. Para as de duas sílabas formadas pelo mesmo fonema (como bonbon) – e com a turma inteira quieta, o que me deixa nervosa e me faz falar – pergunto se “bon ton” serve, porque não sei se é junto ou separado.
A professora faz uma cara de ahn? e, antes mesmo que eu repita, achando que ela não havia entendido minha ótima pronúncia, ela pergunta “mas como tu conhece essa expressão?”
Explico que temos um equivalente em português e logo me dou conta de que devo ter visto isso recentemente (daí a lembrança) no Glossario das palavras e frases da lingua franceza que por descuido, ignorância, ou necessidade se tem introduzido na locução portugueza moderna ; com o juizo critico das que são adoptaveis nella, publicado em 1827.
Tropecei nesse livro de título caprichado há poucos dias, enquanto procurava alguma coisa qualquer no Google. Pois a gente sabe lá da época da escola que, antes de ser invadido por anglicismos e massacrado com o gerundismo, o português era terra de galicismos. Até aí, tudo bem. Mas nunca havia me ocorrido que, também naquela época, a “natural formosura da nossa linguagem” tivesse empenhados defensores.
No Glossario, D. Fr. Francisco de S. Luiz – Bispo Reservatario de Coimbra, Conde de Arganil, do Conselho de Sua Magestade, Presidente da Camara dos Senhores Deputados da Nação Portugueza, e Socio effectivo da Academia Real das Sciencias – reuniu uma série de expressões francesas encontradas nos escritos de autores portugueses da época, selecionando “tudo o que nos pareceo mais notavel e digno de reparo”. Entre elas, página 18, “bom tom”.
BOM TOM: Chamão hoje os afrancezados homem de bom tom o que traja á moda, que se attribue o bom gosto das modas, e cujas maneiras e modos de pensar e obrar são da moda. Parece-nos expressão affectada, de que podemos carecer.
Levando em conta a definição acima, somada à reação da professora de fonética, imagino de não seja mais de bom tom usar bon ton em francês.
O Glossario também traz palavras que, usadas ou não no francês de hoje, parecem ter existido desde sempre no português. Isso é óbvio, eu sei, mas não deixa de ser curioso. Em vez de “imbecil”, por exemplo, Seu Francisco sugere várias palavras portuguesas que dizem a mesma coisa de forma muito mais original – metade delas eu nunca tinha visto.
IMBECIL: IMBECILLE: EMBECIL: De todos estes modos temos achado trasladado o francez imbecille, entendido como substantivo, ao qual em portuguez corrente, e de bom cunho, correspondem as palavras portuguezas fatuo, nescio, sandeu, peco, insensato, parvo, tonto, desasizado &c.
Para mim, para você e para a Luciana Gimenez, #ficadica do bispo:
































