Comer é caro em Paris. Para quem almoça na rua todos os dias – e aqui estou falando principalmente em estrangeiros chinelos, bien sûr – as opções são bastante limitada$. Geralmente, a coisa acaba em sanduíche. Daí que, de tempos em tempos, relembro a merendeira da pré-escola levando um sanduíche de casa para comer entre uma aula e outra. É mais barato, é feito por mim e não é “McDo”.
Ontem, exausta depois de ter trabalhado durante todo o fim de semana, abri a geladeira e peguei tudo o que poderia caber em um sanduíche: queijo gouda fatiado, tomate, mostarda, alface, hm! olha um restinho de camembert ali… Montei tudo, embalei em plástico-filme e coloquei dentro de um tupperware, junto com dois guardanapos. Merenda prontinha.
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Corta para hoje, 7h30, no metrô. Saí cinco minutos mais tarde e já está bem mais cheio. E que fedor. Começo a reclamar mentalmente e percebo que o cheiro que estou sentindo é meio, hm, diferente. Não é fedor de sebo velho, nem de bunda suja, nem de bafo de onça. É um cheiro, não sei, meio podre… e parece vir de… mim!
Pânico. Em poucos segundos, verifico na memória item por item da higiene pessoal. Tudo certinho. Já sei. Só pode ser o casaco. Resgatei ele do armário hoje, para inaugurar as temperaturas negativas. Em pé, segurando a barra de pole dancing do metrô, deslizo sutilmente a cabeça pelo meu braço.
Hmf. Um pouco de cheiro de armário, talvez, mas o nariz fica até melhor ali do que no entorno.
Desço correndo na estação Saint-Michel e, na rua, meu nariz congela o suficiente para não sentir mais nada.
Já tinha até esquecido, quando entrei na sala de aula, sentei e fui pegar meus livros. OH LÀ LÀ. Vejo uma nuvem de odoeur envolvendo o saco plástico no qual está enrolado o tupperware bem fechado com um sanduíche enrolado em plástico filme dentro. Em menos de um segundo, de ré, volto para o segundo parágrafo. A palavra camembert pisca.
Pois é, contaminei o metrô (e a sala de aula) com queijo fedido. Nesse momento, algum companheiro de vagão ainda deve reclamar do cheiro podre no metrô de Paris, amaldiçoando todos esses franceses porcalhões e suas mães.
(Eu, pelo menos, acabei comendo o sanduíche depois da aula, e agradeço aos franceses e suas mães por todos esses queijos deliciosos. Amém.)