27/11/2009

Bom tom, bon ton

Aula de fonética. Lição de hoje: /õ/, o “o” nasal. Como de costume, a professora pede exemplos de palavras para criar os exercícios que faremos depois. Para as de duas sílabas formadas pelo mesmo fonema (como bonbon) – e com a turma inteira quieta, o que me deixa nervosa e me faz falar – pergunto se “bon ton” serve, porque não sei se é junto ou separado.

A professora faz uma cara de ahn? e, antes mesmo que eu repita, achando que ela não havia entendido minha ótima pronúncia, ela pergunta “mas como tu conhece essa expressão?”

Explico que temos um equivalente em português e logo me dou conta de que devo ter visto isso recentemente (daí a lembrança) no Glossario das palavras e frases da lingua franceza que por descuido, ignorância, ou necessidade se tem introduzido na locução portugueza moderna ; com o juizo critico das que são adoptaveis nella, publicado em 1827.

Tropecei nesse livro de título caprichado há poucos dias, enquanto procurava alguma coisa qualquer no Google. Pois a gente sabe lá da época da escola que, antes de ser invadido por anglicismos e massacrado com o gerundismo, o português era terra de galicismos. Até aí, tudo bem. Mas nunca havia me ocorrido que, também naquela época, a “natural formosura da nossa linguagem” tivesse empenhados defensores.

No Glossario, D. Fr. Francisco de S. Luiz – Bispo Reservatario de Coimbra, Conde de Arganil, do Conselho de Sua Magestade, Presidente da Camara dos Senhores Deputados da Nação Portugueza, e Socio effectivo da Academia Real das Sciencias – reuniu uma série de expressões francesas encontradas nos escritos de autores portugueses da época, selecionando “tudo o que nos pareceo mais notavel e digno de reparo”. Entre elas, página 18, “bom tom”.

BOM TOM: Chamão hoje os afrancezados homem de bom tom o que traja á moda, que se attribue o bom gosto das modas, e cujas maneiras e modos de pensar e obrar são da moda. Parece-nos expressão affectada, de que podemos carecer.

Levando em conta a definição acima, somada à reação da professora de fonética, imagino de não seja mais de bom tom usar bon ton em francês.

O Glossario também traz palavras que, usadas ou não no francês de hoje, parecem ter existido desde sempre no português. Isso é óbvio, eu sei, mas não deixa de ser curioso. Em vez de “imbecil”, por exemplo, Seu Francisco sugere várias palavras portuguesas que dizem a mesma coisa de forma muito mais original – metade delas eu nunca tinha visto.

IMBECIL: IMBECILLE: EMBECIL: De todos estes modos temos achado trasladado o francez imbecille, entendido como substantivo, ao qual em portuguez corrente, e de bom cunho, correspondem as palavras portuguezas fatuo, nescio, sandeu, peco, insensato, parvo, tonto, desasizado &c.

Para mim, para você e para a Luciana Gimenez, #ficadica do bispo:

23/11/2009

Pink is beautiful

Perdoem minha profunda ignorância desportiva, por favor, mas quando vi o anúncio acima, no metrô, fiquei intrigada. Seria alguma piada com os machões do rugby? Ou se tratava de um jogo beneficente em prol do combate ao câncer de mama?

O trem chegou e eu me fui, sem conseguir ler direito o que o cartaz dizia. Mais tarde, ainda cismada, questionei Monsieur, que riu compreensivamente e me explicou que aquilo era simplesmente um cartaz anunciando um jogo do Stade Français, time de rugby de Paris, e que rosa é a cor do time.

Nah. Não pode ser.

Mas é.

Quer dizer que, não bastasse aquele monte de ogro ficar se agarrando em campo, eles ainda fazem isso vestindo rosa? Não tenho nada contra ogros, agarração ou rosa, mas esse é o tipo de esporte que eu enxergo como algo que alguém faz, ou mesmo assiste, para se sentir macho. E macho, diz a tradição, não veste rosa.

Uma rápida pesquisa pelo Google Images me deixou ainda mais chocada. Realmente, não sei mais o que dizer. Parece o time de rugby da Barbie.

     

   

 

   

 

      

   

 

P.S.: Como não é em rosa, mas em preto e branco, não comentarei aqui o calendário do Stade (já no seu décimo ano). Tampouco comentarei a linha de cosméticos que leva a marca do time.

22/11/2009

aula de fonética

Inspetor Clouseau aprimorando a pronúncia do inglês:

18/11/2009

Em briga de marido e mulher

Na sexta à noite, estava chegando em casa quando passei por um casal que, à primeira vista, não consegui identificar se estava entre tapas ou beijos. Mas não era galinhagem. O cara puxava a mulher pelo braço, empurrava de volta e gritava (o que ele dizia, não entendi). Eles continuaram; eu fiquei parada em frente ao portão, perplexa. Uma senhora que passava resolveu se meter, também foi empurrada, tentou puxar a outra mulher, gritaria.

Este foi meu primeiro testemunho do tipo – quero dizer, do tipo bem específico, que não inclui os passadinhos do metrô. Me chocou, sim, mas não me surpreendeu. Infelizmente, este é apenas um de inúmeros casos que já ouvi de diferentes amigos, conhecidos e desconhecidos que vivem ou já viveram em Paris. De todos, o conselho que fica é: não se meta (e torça para não ser metido).

Pois hoje mesmo li no Direct Matin, jornalzinho distribuído no metrô, sobre uma nova campanha do governo contra a violência à mulher. São seis cartazes diferentes em que homens “não-violentos” se dirigem aos “violentos”. Hm. Por exemplo, um loirinho cara-de-bunda fala por meio de um balão de desenho animado: “Eu respeito as mulheres. Eu não compro seus corpos.”

       

Será que funciona? Sinceramente, vejo mais chances de haver efeito contrário.

Segundo o Direct Matin, a cada ano, 36 mil mulheres são vítimas de violência no departamento Seine-Saint-Denis (região ao nordeste de Paris, com cerca de 1,5 milhão de habitantes).

P.S. Não fica nervosa, mãe. Tá tudo bem.

14/11/2009

Le divorce

Eu já tinha desconfiado que o divórcio estivesse na moda por aqui. Bem depois de Le Divorcelivro da americana Diane Johnson sobre um divórcio “à francesa” que também rendeu um filme –, é só andar pelo metrô parisiense para ver todo o tipo de anúncios relacionados ao tema, de filmes a livros e a peças de teatro.

Mas me surpreendi mesmo ao abrir uma Pariscope e encontrar na programação o Nouveau Départ, “primeiro salão do divórcio, da separação e da viuvez”, onde os novos avulsos podiam (foi no fim de semana passado) encontrar informações sobre legislação, psicologia, autoimagem, lazer e, céus, “imóveis e decoração”.

É verdade, aqui há salões para tudo. Logo abaixo, na programação da Pariscope, está o Salon de Voyance Exceptionnel, uma espécie de feira de médiuns e videntes. E, bem, na contramão da moda do divórcio, rola por aí um anúncio do Salão do Vestido de Noiva, assim como os carros continuam buzinando em carreata, todos os sábados, para comemorar recém-casados. O que me parece óbvio, aliás: é preciso casar para divorciar.

13/11/2009

L’exposition fashion

vionnet-expo

Contei dois ou três homens andando pela sala de exposição – longe de estar vazia –, todos acompanhando alguma mulher. Ficaria fácil de entender se desse para resumir Madeleine Vionnet, puriste de la mode a uma exposição de vestidos (“l’exposition fashion”, com sotaque francês, como me indicou um guarda do museu). Fácil, também, é pensar “quero todos esses no meu armário”, assim como ver, sei lá, um Barnett Newman e largar um “vai ser gostoso assim na minha parede”.

Mas não é bem assim, a gente sabe.

Gosto muito de moda, mas não consigo ver a moda como arte. Concordo, no entanto, com a curadora da mostra, quando diz que Madeleine Vionnet era uma artista da moda, assim como Picasso na pintura (e que mania! sempre o Picasso).

E é por isso que a exposição se sustenta nas 130 peças mostradas, na maioria vestidos. Além disso, vemos imagens da grandiosa Maison Vionnet, fotos e ilustrações de coleções, o método bizarro das etiquetas com impressão digital e, finalmente, o que faz cair o queixo e voltar para ver melhor as roupas: entender como o pano virava vestido pelas mãos dessa senhora.

Para quem tem alguma ideia da coisa, é só falar no corte em viés (inventado por ela), no moulage, nos drapeados, no caimento incrível… Mas não precisa entender de moda para achar lindo que essa emenda de panos, à esquerda, seja exatamente aquilo ali, à direita:

vionnet-1920-aberto        vionnet-robe-1920

Vou ser mais didática e frisar que isso tudo aconteceu no início do século XX, impulsionando a revolução estética que libertava as mulheres de barbatanas e armações. O vestido ali de cima é da coleção de inverno de 1920; a exposição abrange de 1912 a 1939, período em que ela manteve sua maison.

O engraçado é pensar que a maior parte desses vestidos se parece muito com coisas que vemos hoje por aí, dando aquela impressão de que “a mãe é a cara da filha”.  

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Ah, sim: MMe. Vionnet também foi modista pioneira na luta pelos direitos autorais, porque já naquela época sofria terrivelmente com a inspiração alheia.

Não que não sofresse também com sua própria inspiração. No fim da sala de exposições, depois de passar por esse resumo de duas décadas do que se vê mais como pura criação do que como trabalho árduo, somos sacudidos por estas aspas:

Na verdade, é possível criar facilmente? De minha parte, acho que não, e creio que todas as pesquisas são árduas e quase sempre ingratas. Uma verdadeira criação deve ser necessária e naturalmente trabalhosa: qualquer um que crie deve penar e sofrer.*

Madeleine Vionnet fechou o lojinha em 1939, quando este ia muito bem, obrigado, mas dificilmente sobreviveria à guerra. Ela morreu em Paris, em 1975, aos 98 anos.

A exposição Madeleine Vionnet, puriste de la Mode fica no museu Les Arts Décoratifs, em Paris, até 31 de janeiro de 2010. Mais informações (e fotos dos vestidos) aqui.

vionnet-carte

* Tradução completamente livre que possivelmente contém erros. O original é esse: En vérité, peut-on créer facilement ? Pour ma part, je pense que non, et je crois que toutes les recherches sont ardues et presque toujours ingrates. Une vraie création doit être nécessairement et naturellement laborieuse : quiconque crée doit peiner et souffrir.

10/11/2009

Daniela vai a Paris

Voilà. Foi-se mais de um mês, já, e ainda não conheço muito bem a cidade, ainda não vi o pior do frio, nem cheguei perto d’A Torre. Talvez eu acabe mudando de ideia quanto à cidade, mas, até agora, ela é linda – apesar de suja, apesar de não muito acolhedora. Provavelmente mudarei de ideia quanto ao frio, mas, pelo menos, tenho certeza de que a calefação é uma das grandes invenções da humanidade. E A Torre, bem, não tenho pressa.

As primeiras impressões podem ser bastante óbvias: sim, franceses fedem; sim, já vi gente carregando baguete debaixo do braço; e sim, sim, sim! este é o paraíso dos queijos, dos vinhos, da boulangerie, da pâtisserie, da viennoiserie… Mas serão sempre impressões, e é para isso que abri esse blog – para anotar também as segundas, as terceiras, e lá vai.

O mesmo vale para o álbum de figurinhas: http://www.flickr.com/photos/mmecamera/

Bon appétit!